Minhas lembranças sobre a leitura são fragmentadas. As mais antigas são dos contos da coleção Disquinho tocando na vitrola. Patinho Feio e Branca de Neve narrados por vozes empostadas tomavam conta do pequeno apartamento térreo em Ipanema - o meu preferido era A festa no céu.
Gostava de ouvir minha avó contando como era a vida dela quando criança. Queria saber como eram os lugares, o que ela fazia, todos os detalhes do dia-a-dia, a comida, o banho, o que ela lia. Lembro de um livrinho de orações com capa de madrepérola, que ficava ao lado de sua cama, gostava de folhear as páginas fininhas, quase transparentes. O objeto me interessava muito mais do que seu conteúdo.
Eu lia os textos de embalagens de todo tipo, durante o café da manhã, no banho. Cartazes na rua, out-doors.
A enciclopédia Delta Larousse ocupava um lugar acessível na estante de minha mãe. Aos 10 anos, sentava lá às tardes e ficava lendo aleatoriamente todo tipo de informação.
Minha avó havia feito encadernação, mas depois abandonou a atividade, sem explicar o motivo. No seu quarto ficavam os livros que ela havia encadernado, capas de couro e letras douradas. Ela adorava poesia. Eu tinha especial apreço por uma edição do livro de Cecília Meirelles Ou isto ou aquilo. Ilustrado por xilogravuras em papéis coloridos, tinha o formato comprido, vertical.
Passava um tempão conversando com Paulina, a cozinheira, natural de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. Aquele lugar me fascinava - a distância, os gaúchos, o mate, o frio, a névoa da manhã. Adorava quando ela me convidava para escrever as cartas para a família, era como se um pouco de mim fosse para lá.
No início da adolescência, tornei-me sócia do Círculo do Livro, um tipo de Avon da literatura adaptada para jovens, com clássicos ilustrados. Todo mês eu escolhia e encomendava um livro a um vendedor que vinha em casa. Quando chegava o livro, cada momento era um prazer. Abrir a embalagem, folhear, ver os desenhos, e só então iniciar a leitura.
Aos 12, reinvidiquei autonomia e passei a ir sozinha para a escola e pelo bairro de Copacabana, para onde nos mudamos após a separação dos meus pais. A biblioteca do bairro foi minha grande companheira nessa etapa - fazia lições, pesquisas, ficava por lá horas, fuçando as prateleiras.
18.3.09
3.3.09
Wordia
É um dicionário falado online. Os verbetes são postados em vídeo e mostram o significado que a palavra tem para a pessoa que a publicou no site. Do lado direito, há a definição de dicionário; palavras que têm mesmo campo lexical; o perfil da pessoa que a enviou. Você pode buscar uma palavra, ver as palavras mais recentes e as mais procuradas, buscar pelo nome da pessoa que publicou, ver a palavra do dia e recebê-la no seu e-mail. Os autores são identificados por fotos e biografias. O design é simples e bonito. Deem uma olhada: wordia. Dá vontade de fazer um em português.
A odisséia de Drummond

O amor, apesar de ser individualizado no conto, é um substantivo que representa algo que é de conhecimento comum e com ele convivem seres indefinidos representados por "quem", sujeito indeterminado (cercaram/arrancaram-lhe), "todos", "ninguém". Isso traz uma generalização, cujo efeito é fazer com que o leitor se veja como parte desse todo.
Não deixei de pensar nos deuses gregos, que representavam elementos da trajetória humana no mundo, como Eros, Artemis, Apolo.
Entre os elementos coesivos, o autor usa "e" e vírgulas, criando um ritmo ágil, que lembra a fala.
O conto lembra também textos religiosos, como a parábola, em que há um caráter educativo na narrativa. E menciona o texto bíblico que diz que Jesus ressuscitou no terceiro dia.
Há neste conto estruturas estabelecidas e um tema corrente na literatura [amor] misturados a fatos contemporâneos - a tentativa de eliminá-lo pela violência, com métodos usados durante a ditadura militar. É interessante a menção ao lugar escolhido para isolá-lo - além da memória, considerando que as narrativas orais às quais o texto se liga são transmitidas/herdadas graças à memorização.
O amor permaneceu vivo na memória, pelo fato de todos falarem nele, de ele ser um desejo compartilhado. Talvez tenha havido no momento em que o conto foi produzido falta de espaço para o amor realizar-se materialmente, apenas no imaginário, nas rimas, nos sonhos ele poderia existir. O amor era um porvir.
O amor foi à função
O conto de Drummond é construído com referências a outros textos e esquemas narrativos. A intertextualidade começa no título. As peripécias do personagem amor foram intituladas de "Odisséia", como o poema épico grego que conta a viagem de Odisseu [que durou dez anos] de volta à sua casa após a Guerra de Tróia. O nome do poema, composto no século VII a.C. e transmitido oralmente, tornou-se sinônimo para trajetórias cheias de aventuras e percalços.
Há semelhança com o conto de tradição oral, geralmente estruturado com uma sequência de ações vividas pelo personagem principal. No caso de amor, o personagem vive acontecimentos incomuns, extraordinários, como os heróis da Grécia antiga, os quais ele supera com força sobre-humana.
No primeira linha, há o diálogo com o "Poema tirado de uma notícia de jornal" de Bandeira, cujo personagem João Gostoso "bebeu, cantou, dançou", mas no fim se jogou na Lagoa Rodrigo de Freitas. Há nesse poema uma trajetória do anonimato à notoriedade, alcançada apenas com a morte noticiada no jornal por ter ocorrido num lugar considerado "cartão-postal" da cidade do Rio ao contrário do lugar onde morava João, o Morro da Babilônia. O herói urbano não consegue ultrapassar as dificuldades colocadas por sua vida comum, ao contrário do amor.
O conto expressa bem o que Alfredo Bosi disse sobre os textos serem gerados pela "percepção singular das coisas e cadências estilísticas herdadas no trato com pessoas e livros". Assim como o leitor vê o texto através da perspectiva social e cultural e da sua leitura afetiva.
Há semelhança com o conto de tradição oral, geralmente estruturado com uma sequência de ações vividas pelo personagem principal. No caso de amor, o personagem vive acontecimentos incomuns, extraordinários, como os heróis da Grécia antiga, os quais ele supera com força sobre-humana.
No primeira linha, há o diálogo com o "Poema tirado de uma notícia de jornal" de Bandeira, cujo personagem João Gostoso "bebeu, cantou, dançou", mas no fim se jogou na Lagoa Rodrigo de Freitas. Há nesse poema uma trajetória do anonimato à notoriedade, alcançada apenas com a morte noticiada no jornal por ter ocorrido num lugar considerado "cartão-postal" da cidade do Rio ao contrário do lugar onde morava João, o Morro da Babilônia. O herói urbano não consegue ultrapassar as dificuldades colocadas por sua vida comum, ao contrário do amor.
O conto expressa bem o que Alfredo Bosi disse sobre os textos serem gerados pela "percepção singular das coisas e cadências estilísticas herdadas no trato com pessoas e livros". Assim como o leitor vê o texto através da perspectiva social e cultural e da sua leitura afetiva.
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21.2.09
Empréstimo

Este deveria ser o primeiro post.... Quando tive de criar o nome do blog, este nome veio vindo à medida que eu pensava no que fazer com as palavras língua e linguagem. Via linguagem - vi a língua - língua viagem. Linguagem com viagem? Não estava gostando muito disso. Resolvi assumir meu lado anos 80 e o trocadilho.
Chegando em casa, a origem do nome apareceu: existe um livro de Augusto de Campos cujo título é Linguaviagem, em que ele apresenta dois estudos sobre os poetas Paul Valéry e Mallarmé e Keats e Yeats. Na "breve introdução", ele diz que o "projeto supõe percursos de casos e acasos, viagens no tempo-espaço e na língua-linguagem." [...] "Desviagens da poesia que [...] é uma viagem ao desconhecido. VIA LINGUAGEM."
Augusto me ajudou a entender o que desejo - tentar compreender e registrar aqui a viagem ao conhecido-desconhecido que fazemos todos os dias via linguagem. É bom saber que não estou sozinha e que vamos fazer esse percurso juntos pelos próximos 540 dias.
Site oficial de Augusto de Campos: http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm
[CAMPOS, Augusto. Linguaviagem. São Paulo, Cia das Letras, 1987.]
O livro de cabeceira

As aulas de história da escrita da Antonia trouxeram-me a lembrança do filme O livro de cabeceira, dirigido por Peter Greenaway. No Japão, um escritor viúvo cria a filha Nagiko com a ajuda da irmã. A cada ano, em seu aniversário, o pai escreve de forma ritualística no rosto e na nuca da menina. Um dia, a tia a presenteia com um livro de uma escritora japonesa do final do século 10, chamada Sei Shonagon, o Livro de cabeceira. [Sei era uma dama da Imperatriz Sadako perto do ano 1000. Ela registrou seus pensamentos, descrições de acontecimentos e poemas.] Quando cresce, Nagiko busca reviver os momentos de prazer em que sentia a tinta e os gestos da caligrafia de seu pai escrevendo poemas na sua pele. [ilustração de Sei Shonogan escrevendo, de autor desconhecido, fonte Wikipedia]
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